segunda-feira, 29 de junho de 2015

Direitos humanos para nos tornarmos humanos

    Os humanos, enfim, alcançaram um patamar de civilidade, desenvolvimento científico e tecnológico que os fizeram crer que a razão agora era senhora e eixo consistente no seio da sociedade. E sendo assim, não era mais necessário partir para atos primitivos, violentos, identificados como comportamentos irracionais, animalescos. Éramos “homens civilizados”.
     Eles estavam errados. Uma seguida, da outra, as guerras mundiais foram tapas na cara, água no chope, foi como se o rosto que se apresentava no espelho causasse surpresa a quem se olhava. Não havia mais como fugir, as pessoas eram aquilo: violentas, agressivas, irracionais, dadas aos atos mais bestiais, estupros, roubos, torturas. E pior, eram capazes de institucionalizar a violência como ato justificável. Os avanços culturais ainda não eram suficientes.  Ainda éramos animais.
    O que fazer diante dessa realidade? Diante do ódio, qual a resposta? Essa sociedade humana optou por uma resposta de amor. A Declaração de Direitos Humanos é essa resposta. Se somos capazes de reduzir-nos uns aos outros a objetos de sadismo, de injustiça, de ódio, é preciso garantir uma luta permanente contra nossos próprios horrores. É por essa razão, isto é, por que somos capazes de nos destruir e por que somos capazes de criar os argumentos mais morais – e até científicos – para justificar nossa destruição, que é essencial a resistência permanente em favor do respeito aos direitos humanos, especialmente onde a violência passa a ser ato cada vez mais justificado.
     Somos tantas nações, tantas paixões, tantas crenças e interesses. Mas, nada, nada disso deve ser motivo para ultrapassar o que ali está firmado, por que ali está o que há de mais básico em termos de direitos. A partir dessa declaração é possível colocar em questão e julgar qualquer evento que a contrarie, estabelecendo limites aos estados, leis, religiões, manifestações culturais etc. Talvez não seja o bastante, porém é um passo importante, um passo de palavra.
    Muitos ainda não entendem a importância da defesa dos Direitos Humanos, mas é por que não se deram conta disso que os homens daquela época não tiveram dúvidas... Ou talvez não... Talvez não saibam que é inócuo responder ódio com mais ódio. Enfim, decididamente ainda não se deram conta que é da nossa própria violência que se trata. Trata-se do que sou capaz.

quinta-feira, 26 de março de 2015

O meu racismo - ou como me tornei negro



  Não nasci negro... E o interessante é que minha certidão de nascimento corrobora tal afirmação. Está lá, pele branca. Mal sabia o cartorário a dimensão simbólica que o ato de me negar a negritude naquele documento comportava.
Pai branco e mãe negra, ambos com Ensino superior logo batalharam uma melhora progressiva de vida. Eu, criança já não cabia no branca da palidez recém nascida, mas isso não me lançava por si só a categoria negro, antes, moreninho.
  Cresci acostumado ao título, que não era tão bom quanto ter pele clara, olhos claros, lábios finos e cabelos lisos, mas servia. Servia para quê? Cresci arrumando apelidos para os amigos negros, rindo de piadas que comparavam pessoas de pele preta com macacos ou que os naturalizavam como pobres. Sem angústias para alguém que é moreninho e classe média.
  Não lembro exatamente como se deu, mas, a vida tratou de me bater na cara e me deparei com algumas situações: um atendente me diz que eu era preto e ainda por cima usava brinco – é, eu usava; um adulto me chama de preto como quem me ofende; percebo que raramente há pessoas com o mesmo tom de pele que o meu nos meus círculos, na escola, filhos dos amigos dos meus pais... Um desconforto se coloca.
  Em algum momento leio ou escuto sobre como negros não se declaram como tal, e passo a perceber que há um melindre em chamar alguém negro e é quando começo a me declarar por esse termo. E quando faço isso escuto: “ah, mas você não é negro, é moreninho”. O tom é de consolo.
  Começava a ficar cada vez mais nítido o que é o racismo em nossa sociedade. E como tudo o que se liga à negritude tem um valor negativo, a saber, a própria palavra “negro” ou “preto”, o cabelo crespo – ruim –, nariz achatado, o candomblé, a ubanda, enfim, quanto mais preta a pele e quanto mais identificado ao que é de negro, maior a desconfiança para com o indivíduo ou manifestação.
  Quando finalmente entendi que tudo isso era o resultado dos anos de escravidão passei a exigir de mim uma posição política. Eu precisava “ser negro”, notem, ainda não era negro, mas sentia que ao me declarar assim podia contribuir na lenta transformação da representação social do negro. Uma estranheza ainda pairava.
  Foi apenas recentemente que pude finalmente me tornar negro e reconhecer o que é parte da minha história, e isso só foi possível quando reconheci dentro de mim, não só o oprimido, como também o opressor que pensei já não existisse mais. Explico-me.
  Sempre considerei que não sofria preconceito racial, o fato de ser de classe média alta parecia algo que me blindava – e de fato blinda. Porém, isso mudou quando me vi como o opressor de mim mesmo. Percebi o quanto me fechei pela aparência física, me assustei com o que eu via nos olhos das meninas – brancas – quando me olhavam – e que nada mais eram que reflexos do que estava nos meus olhos – e o quanto desejei na solidão da adolescência, ter outros traços menos... De negro. Notei, com surpresa, do receio e dos cuidados que sempre tomei para que não fosse confundido com um ladrão em super mercados e lojas, o medo que tenho de entrar em certos lugares com roupas mais simples, como se eu mesmo me achasse alguém suspeito ou merecedor de suspeitas. Por fim, com tanta opressão da minha parte contra mim mesmo, eis que me senti oprimido. E desta feita pude entender de maneira mais profunda que antes o que é o resultado do processo de racismo. Numa sutileza que pesa uma tonelada. Pesou a mim.
  Essa é a história do meu racismo e ela só serve na medida em que diz um pouco do racismo em nossa sociedade – e não só da minha neurose que diz respeito só a mim – isto é, só vale enquanto diz de algo coletivo, compartilhado e amplamente vivido.
  Falo sob o ponto de vista individual para mostrar o meu modo de perceber como o verdadeiro opressor é a cultura, aquilo que se pratica diariamente e que apenas alguém que se identifica ou é identificado como negro pode sentir, pois esta palavra trás tantas outras a baila...
  É evidente que há expressões de racismo muito mais violentas e é o que mais me incentiva a continuar fazendo minha parte para a mudança dessa representação social. E o escrito que aqui está, garanto-lhes, saiu com alguma hesitação. Eu só espero que me sirva ter escrito e, com sorte, que soe como um convite a quem ainda precise reconhecer alguma parte de sua história.    

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Por que piada contra negro não é tratada como piada contra gordo?

   Percebo uma dificuldade em uma parte grande de pessoas, de entender por que é que quando se trata de ofensas a negros tudo parece tão mais sério, afinal, o "gordo" também sofre, o "magrelo", ou mesmo o "branquelo", todos eles podem sofrer com xingamentos, e outras ofensas. Muitos parecem sinceramente confusos quanto a isso e quando se colocam, geralmente são acusados de racismo, o que os deixam ainda mais confusos - ou putos, já que "não tenho nada contra negros". Bem, se você é uma dessas pessoas e quiser finalmente compreender, não pode ter preguiça, pois a explicação exige sair do lugar comum.
   Primeiramente, deve-se partir do pressuposto que as razões para o que acontece extrapolam o campo individual, isto é, a gravidade da ofensa não é medida pela quantidade de constrangimento que um negro sente ao ouvi-la, não é essa a régua. Certos insultos a UM negro, sempre, sempre, dirão  respeito a todo coletivo de negros, e mais, reproduzirão uma ideia, um pensamento que a sociedade tem para com pessoas identificadas como negros ou de cor preta. Explicarei melhor adiante.
   Não é possível avançar no argumento sem se remeter a história, quase recente. Sim, recente, afinal, em um país que possui 514 anos, algo que aconteceu durante aproximadamente 388 anos não é tão longínquo. Me refiro ao período em que a escravidão era legalizada. E não podemos esquecer que ela continuou - será que acabou? - por muito tempo ainda, de maneira disfarçada. Logo, não é difícil concluir que suas consequências se fazem presente.
   Quando os negros foram arrancados das suas terras e transformados em escravos, a ideia que justificava tal prática, era que se tratavam de "humanos inferiores", "menos humanos", isto é, estariam "aos olhos de Deus" abaixo das pessoas de pele branca. Essa ideia de "seres inferiores", é o que cristalizou-se no sentido atrelado a palavra "macaco" - que é um animal que parece humano - e a outros insultos, ou a todos os insultos que se referem a cor escura da pele.
   Quando uma torcedora utiliza-se desta palavra com o intuito de ofender, ela, provavelmente sem se dar conta, reproduz toda a história de humilhação que o povo negro sofreu, coloca no presente, a crença que sustentou um dos maiores crimes já feitos contra a humanidade. Há um valor simbólico aí, que não pode ser descartado ou minimizado. O ato de xingar um negro de macaco, carrega o sentido mesmo da escravidão, sustenta o pensamento de que um homem é superior ao outro pelo tom de cor da sua pele. É preciso entender que a torcedora não quer escravizar o goleiro - não é do campo individual que se trata, lembram? - no entanto, ela reproduz um sentido social, que está ligado a história, e tal vínculo, ato-história é indissociável. É por esse mesmo motivo que queimar a casa dela não faz o menor sentido, afinal, não é exatamente ela quem é racista - imagino que essa moça não ache certo a escravidão, ou que negros são menos humanos e etc - mas, infelizmente, o ato dela, mostra que vivemos uma cultura racista. O indivíduo veicula essa cultura, e deve ser punido, na medida que essa punição sirva para mudar a nossa cultura, em minha humilde opinião, punir é até secundário nesse caso, melhor seria se usássemos o exemplo da torcedora para produzir novos valores - de certa maneira esse texto é minha pequeníssima contribuição nessa baila.
   Bom, em outras palavras, o que você, que não entende a gravidade de uma ofensa dessa, está ignorando, é, por um lado, o que podemos chamar de "mundo simbólico" - o fato de que um ato ou palavra, pode fazer referência a outro sentido, neste caso "xingar de macaco" automaticamente presentifica a "humilhação histórica sofrida pelos negros" e a "crença de que o negro é inferior" - e por outro lado, o quanto a aceitação do racismo é recente na história. Combinados, esses dois fatores dão peso gigantesco a qualquer tipo de ato que se ligue, ainda que de maneira débil e inconsciente, ao racismo. A mesma coisa vale para piadas que produzem o mesmo efeito. Portanto, o mal que você não vê em certos comentários, está lá, pois, há um sentido que se relaciona com a história de crueldade vivida pelo negro
   Se foi possível me acompanhar até aqui, por último, gostaria de dizer que apenas um negro, ou pessoa de cor preta, pode sentir a sutileza do lugar que ocupa em nossa cultura. Sentimos a influência em nosso próprio modo de pensar - muitas vezes reproduzimos a mesma cultura racista. É uma violência sutil - e ás vezes não. É por isso que quando você, que não se identifica, nem é identificado como negro, questiona se "não estão exagerando na crítica a atos de racismo", automaticamente é colocado no mesmo lugar que o agressor, por que você não está em condições de julgar isso, e seu questionamento é facilmente interpretável como "ato para manutenção do racismo" - e de fato adquire essa função - ainda que não seja sua intenção.

   Concluindo, ninguém precisa concordar com o que é ou não racismo, porém, eu espero que tenha conseguido mostrar em que plano penso que essa discussão deva ser colocada, que é o da história, que é o do coletivo, e não se a torcedora é ou não racista, ou se ele se ofendeu ou não com o xingamento. E o grande motivo pelo qual entendo que não se pode tolerar nenhum ato que faça referência ao "negro menos humano" é por que justamente,  é nítido que ainda não conseguimos superar a fina e pegajosa camada de pó que os anos de escravidão lançaram sobre nossa sociedade. Enquanto for assim, a sociedade será obrigada a forçar um movimento - que parece só se fazer sob empurrão - no sentido da mudança da representação social do negro. Mudança que só pode ser a  fórceps, só na insistência indignada e que não vai sem conflito e contradição. 
  

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O filho do meu avô

Fico imaginando ele pelos céus. Atravessando as nuvens. Logo eu que penso que o homem não foi feito prá voar, e que não enfrento o vôo sem uma pitada de estranheza, ainda que sem medo. Já soube, mas não sei mais o seu nome. Não deve ter meu sobrenome, nem as minhas manias, também não deve portar a nossa questão fundamental, a minha e a dos demais homens da família, aquela que nos lança ao mundo em busca de resposta. Porém, deve ter a sua própria. O que significa ser da mesma família? Não basta ter os genes, bobagem irrelevante. É preciso dividir algo além de um monte de fatores microscópicos. O que o atravessa enquanto ele atravessa as nuvens? Será algo do qual partilho? Provavelmente não terei a resposta. Nunca saberei se tenho um familiar perdido por aí, pilotando aviões, ou se é apenas o filho do meu avô.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Só um

Ele podia conhecê-la. E continuar conhecendo-a para além e permanentemente. Gente não é lago, não tem profundidade na medida em que não tem onde alcançar o pé. Mas seu amor não era do tipo seguro. Não havia o mínimo de razão, não havia sequer uma tábua que pudesse acolher alguma lei autorizando. Pensou na vida que tinha e em tudo que não sabia  que queria. Quando entrou naquela rua, ao virar aquela esquina, jamais poderia dizer que não sabia dos riscos. Pensou em tudo isso e concluiu que seu incômodo não era esse. Voltou a refletir. Sempre fora seguro de si, desconhecia seu ardor por controlar. E ela não era de se deixar, não era de se privar, dos amores que por ventura aparecessem. Suspirou. Percorreu aquele corpo seguindo as pistas deixadas por outros. Certas marcas, sinais de calafrios. Havia raiva, não por saber que ali haviam estado e ainda iriam estar, mas por imaginar, temer no seu íntimo, que como outrosera só mais um.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Outra noite no pantanal

O frio da madrugada ansiava por congelar os ossos, porém o máximo que fazia era criar um grande desconforto ao encostar a pele no cano da espingarda. A janela precisava ficar aberta, era o modo de enxergar melhor quem por ventura cruzasse pela estradinha até a casa. Tudo aquilo era necessário, era a morte que pairava sobre o mato, até onde a visão alcançava. Suspirou, era impossível crer medo naqueles olhos, não tinha sono, mantinha as vistas de falcão, o dedo no gatilho, a família recolhida. Estava decidido a não morrer naquela noite. O homem disse que viria, e disse que o mataria, coisa que precisa ser levada a sério, portanto, levou. Grunhiu lembrando do acontecido, ninguém deveria espancar o filho daquele jeito, ainda mais em público, era de bom tom não intervir, pensou, mas ele enfrentou o pai do garoto, lançou-o na parede, e escutou o juramento. Provavelmente tenha sido uma ação inócua, e o pobre menino tenha sentido toda a fúria do pai mais tarde, quem sabe a única conseqüência era estar entrincheirado naquela madrugada. Mas isso não o incomodava demasiado. Sabia que nunca havia sido uma pessoa morna, não podia esperar outra coisa de si mesmo, portanto não se surpreendeu.
Num sobressalto apontou sua espingarda apoiando-a no peitoral da janela, afinando os olhos viu que uma figura se aproximava. O dedo alisou o gatilho.
- Não atire!
O gatilho convidou.
- Não atire!
A voz insistiu e ele finalmente notou um tom familiar.
_ Eu vim ajudar, tio. Não atira.
Não disse nada, mas os olhos mostraram um tom agradável. Era bom ter companhia, afinal. Uma mira a mais. Não que achasse realmente que precisaria de mais que um tiro.
As horas foram passando e a manhã foi sorrateiramente deslizando sobre o pantanal. Nem um tiro foi ouvido. Os dois homens na janela já se descontraíam e a espingarda repousava encostada na parede. A tensão ia embora com os sibilos noturnos e com a notícia de quê o homem esperado havia pegado o trem para a capital. Na casa já se podiam ouvir risadas.

terça-feira, 11 de março de 2014

Morto de fome

          Um dia encontrou aquela mulher. No lugar que ela sempre esteve. Sarcástica, forte, de passado torto, acostumada com o que havia de pior na vida. Encontrou-a ali, com os olhos em tom caramelo. Fingida, dissimulada, e ao mesmo tempo cristalina como se é possível. Dona da verdade, ostentando um doce fervor. Ativa, a energia podia ser vista nas suas curvas e traços fortes. Foi por não pensar direito que ele pensou que podia passear por essa floresta de desejo sem se perder. Ela levantou as pernas delicadamente, e paradoxalmente revelava sua feminilidade agressiva, animal morto de fome. E ele engolido, perdido, procurou uma solução. Mas como de costume é, ela queria outra coisa, um homem mais homem, menos apaixonado, menos garoto. No outro dia ele sofreu como poucas vezes. Mas sentiu que merecia.