Ele podia conhecê-la. E continuar conhecendo-a para além e permanentemente. Gente não é lago, não tem profundidade na medida em que não tem onde alcançar o pé. Mas seu amor não era do tipo seguro. Não havia o mínimo de razão, não havia sequer uma tábua que pudesse acolher alguma lei autorizando. Pensou na vida que tinha e em tudo que não sabia que queria. Quando entrou naquela rua, ao virar aquela esquina, jamais poderia dizer que não sabia dos riscos. Pensou em tudo isso e concluiu que seu incômodo não era esse. Voltou a refletir. Sempre fora seguro de si, desconhecia seu ardor por controlar. E ela não era de se deixar, não era de se privar, dos amores que por ventura aparecessem. Suspirou. Percorreu aquele corpo seguindo as pistas deixadas por outros. Certas marcas, sinais de calafrios. Havia raiva, não por saber que ali haviam estado e ainda iriam estar, mas por imaginar, temer no seu íntimo, que como outros, era só mais um.
terça-feira, 8 de abril de 2014
segunda-feira, 24 de março de 2014
Outra noite no pantanal
O frio da madrugada ansiava por congelar os ossos, porém o máximo que fazia era criar um grande desconforto ao encostar a pele no cano da espingarda. A janela precisava ficar aberta, era o modo de enxergar melhor quem por ventura cruzasse pela estradinha até a casa. Tudo aquilo era necessário, era a morte que pairava sobre o mato, até onde a visão alcançava. Suspirou, era impossível crer medo naqueles olhos, não tinha sono, mantinha as vistas de falcão, o dedo no gatilho, a família recolhida. Estava decidido a não morrer naquela noite. O homem disse que viria, e disse que o mataria, coisa que precisa ser levada a sério, portanto, levou. Grunhiu lembrando do acontecido, ninguém deveria espancar o filho daquele jeito, ainda mais em público, era de bom tom não intervir, pensou, mas ele enfrentou o pai do garoto, lançou-o na parede, e escutou o juramento. Provavelmente tenha sido uma ação inócua, e o pobre menino tenha sentido toda a fúria do pai mais tarde, quem sabe a única conseqüência era estar entrincheirado naquela madrugada. Mas isso não o incomodava demasiado. Sabia que nunca havia sido uma pessoa morna, não podia esperar outra coisa de si mesmo, portanto não se surpreendeu.
Num sobressalto apontou sua espingarda apoiando-a no peitoral da janela, afinando os olhos viu que uma figura se aproximava. O dedo alisou o gatilho.
- Não atire!
O gatilho convidou.
- Não atire!
A voz insistiu e ele finalmente notou um tom familiar.
_ Eu vim ajudar, tio. Não atira.
Não disse nada, mas os olhos mostraram um tom agradável. Era bom ter companhia, afinal. Uma mira a mais. Não que achasse realmente que precisaria de mais que um tiro.
As horas foram passando e a manhã foi sorrateiramente deslizando sobre o pantanal. Nem um tiro foi ouvido. Os dois homens na janela já se descontraíam e a espingarda repousava encostada na parede. A tensão ia embora com os sibilos noturnos e com a notícia de quê o homem esperado havia pegado o trem para a capital. Na casa já se podiam ouvir risadas.
terça-feira, 11 de março de 2014
Morto de fome
Um dia encontrou aquela mulher. No lugar que ela sempre esteve. Sarcástica, forte, de passado torto, acostumada com o que havia de pior na vida. Encontrou-a ali, com os olhos em tom caramelo. Fingida, dissimulada, e ao mesmo tempo cristalina como se é possível. Dona da verdade, ostentando um doce fervor. Ativa, a energia podia ser vista nas suas curvas e traços fortes. Foi por não pensar direito que ele pensou que podia passear por essa floresta de desejo sem se perder. Ela levantou as pernas delicadamente, e paradoxalmente revelava sua feminilidade agressiva, animal morto de fome. E ele engolido, perdido, procurou uma solução. Mas como de costume é, ela queria outra coisa, um homem mais homem, menos apaixonado, menos garoto. No outro dia ele sofreu como poucas vezes. Mas sentiu que merecia.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Fé
Quanto mais cavo, menos sinto falta da religião e da espiritualidade. Mantenho a fé... Nas pessoas, nas mudanças ainda que lentas. Tenho os meus ritos, demasiadamente humanos e com sentidos particulares. No meu altar os santos são homens, pecadores, não são ideais, é gente que soube fazer algo – uma coisa que seja – muito bem. Artistas, cientistas, loucos. Lá há mais melodias do que imagens. Minha oração é uma canção, em outros dias é outra, e assim vai conforme tocam meus sentimentos. Meus irmãos não dividem a mesma crença, não precisam ser iguais, embora não deixamos de sermos naturalmente. Diante do oco da vida, do que nos desespera, não recorro a Deus, mas ao mistério da vida humana, do mundo que nos determina, e da finitude irremediável. Espero um dia aceitar definitivamente o fim, a quem o aceita não há dor que tire a importância da vida, não há sofrimento capaz de diminuir a imensidão.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
A Triste História do Cão
A triste história do cão. Cresceu em torno da gurizada, de pequeno a grande, dócil como um filhote. Lambuzava a boca com comida de cachorro e vinha correndo lamber a cara dos meninos. O último a se levantar vencia o jogo. O cão vivia pelo quintal e de fato, cresceu bastante, virou um cachorrão. Cuidava da casa da família e prestava o carinho necessário. Parecia feliz.
Um dia o menino brigou com a mãe e foi correndo para o quintal, gritando, chorando, fazendo um escarcéu. Não se soube bem se pelo barulho, adrenalina, ou o quê, afinal, os animais não prestam esclarecimentos sobre seus atos, mas o cão se aproximou e num salto violento atingiu o pescoço do menino. Quase lhe partiu a orelha. O estrago foi grande. Quem poderia imaginar que atrás da docilidade se escondia tamanha fera? Quase matara o garoto. E por pouco não se foi ele, executado de raiva pelo 38 do avô.
Tudo então mudou. O cão foi para o canil, construído a maneira de uma solitária. Não via mais gente, não lambia mais a gurizada. Esperava a noite para voltar ao quintal e no amanhecer voltava à prisão. Anos se passaram e a partir dali foi se transformando. Se havia uma disputa entre seu lado dócil e seu lado violento, o último levou a melhor. Tornara-se pura agressividade. Temido e tido como traiçoeiro, deixava um rastro de ataques na sua história. Quase matou o vô, quase arrancou o dedo do rapaz. Com os pelos longos parecia um leão, imponente, cruel, aterrorizante.
Como a vida vem e vai, um dia, de velho, finalmente se foi. Nunca mais seria esquecido, tal sua violência marcante, lembrado pelas cicatrizes nos corpos que cruzaram o seu caminho. Mas, felizmente, não só por isso seria lembrado, mas também por que ensinara algo a um dos garotos lambidos. Uma lição importante sobre agressividade, sobre como ela subjaz adormecida: se estava no cão, também estava na solitária, na pena pela mordida. O garoto lambido que ao visitar a avó fazia questão de falar com o cão, atrás das grades, e sem se atrever a encostar na fera, quis escrever sobre assunto, perguntava de que é feito um monstro. E, por fim, pensou, quem sabe ser um monstro dependa do fato de se ter a alcunha.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
A menina e o horizonte
Amava o horizonte. Com todas as forças que tinha dentro do peito. Com todo calor que lhe queimava a pele. Amava-o por estar à frente, onde o sol nasce e morre. Por estar sempre, todo tempo lá, ainda que invisível por detrás das barreiras naturais... E quem, hora ou outra, não está? Via, na sua beleza resplandecente, a poesia diária, insinuando o que havia de mais secreto dos seus pensamentos. Buscava uma pedra, prá ficar voltada para o mar, mas era ao horizonte em si, que dirigia os seus suspiros. Baixos para ninguém escutar. Fantasiados para ninguém perceber o seu amor velado. Amava-o pelo seu silêncio, pela sua paciência e discrição. Mas amava-o de maneira tão violenta, especialmente por ele estar, a cada passo seu, um passo mais longe. Inatingível como a perfeição. Ao horizonte restava o destino infeliz, de amar os olhos dela, distantes.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Na trilha da independência
É bem cedo. Mas há uma boa razão para rumarmos em direção à rodoviária, com mochilas cheias de sanduíches, garrafa de água. A juventude serve para a velhice inventar histórias. Ônibus de linha na estrada, tem que passar a salgadeira, ver o duende esculpido nas pedras, inventar nas linhas desconexas da montanha outros tantos desenhos e criaturas. Sem isso não haveria bom presságio. Preocupação de mãe já lançara algum agouro. Da entrada na estrada ao mirante do Véu de Noiva, vários passos pela terra colorida. Avistamos a beleza da natureza e decidimos, como sempre, pela mesma trilha. O roteiro já está na cabeça de cada um. Observar o cânion, de entrada, enche-nos de motivação. Muito mato até finalmente chegar no nosso primeiro ponto de descanso. A praia serve de base, a água gelada de primeiro refresco. É onde sempre almoçamos e nos molhamos pela primeira vez. Nossos sanduíches depois de horas de caminhada cheiram a banquete. Dali em diante só tende a melhorar. Passamos pelas piscinas, pouco convidativas para o mergulho, afinal, rumamos para a do Pulo. Uma queda fantástica de cinco metros. O corpo quente da caminhada se lança sobre o gelo doído, caímos tão fundo que roçamos as folhas do chão da lagoa. Saltar de ponta tonteia os corajosos. A água gelada seca no sol, a pele agradece. Dali partimos para o inigualável. Depois de uma descida tortuosa, angustiante, difícil e assustadora. Como se o acesso ao paraíso precisasse ter o mínimo de dificuldade. A Independência. Seus vários metros de altura impedem que nos lancemos do alto. Mas apenas a sua visão já vale cada escorregão. O vento, fruto da queda violenta da água, muda a estação. É possível sentir frio. Sempre fico abobalhado naquele lugar. A existência vai refinando até ficar tão delgada, tão pequena. Nadamos até as pedras, ralamos os joelhos, canelas, prá finalmente nos postarmos atrás das águas. O barulho é insurdecedor, mas a paz é quem fica rouca. Nadamos de volta, e voltamos a ralar os joelhos, as canelas. Descansamos sobre as pedras e sob os poucos filetes de raio de sol que conseguem alcançar a clareira por entre a folhagem. Não é cômodo, mas ainda assim é difícil sair dali, porém agora é momento de voltar. Seguimos por onde viemos, algumas horas e estaremos em Cuiabá, mortos, mas vivos como nunca.
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